Projecto Cabo Verde

Estudantes universitárias e jovens profissionais, em regime de voluntariado, integradas num projecto de cooperação

Arquivo de Agosto 14, 2010

12 de Agosto :: décimo-sexto dia

Pelas 7 da manhã, no pátio do Jardim Infantil Pancini, as voluntárias começam a despertar muito lentamente. Cada dia que passa custa mais a levantar.

As artes e o teatro esmeram-se para os últimos preparativos da festa. Hoje a aula de teatro foi no futuro palco do festival. A Margarida Calado, com a preciosa ajuda do megafone que as de Coimbra trouxeram (obrigada Rusa!) e os da Mafalda LM (obrigada também!), e a Guida Moreira, iam dando indicações às crianças. Estavam muito entusiasmados. Nas artes acabaram de estampar t-shirts que servirão para o festival de amanhã. Foi preciso muita paciência para manter uma certa ordem. Como era de esperar, as monitoras da actividade, e os próprios miúdos, saíram tão ou mais pintados como as t-shirts. Com umas pinceladas mais ou menos acertadas, as pinturas de peixes, flores, tartarugas, caranguejos e outros ficaram muito bonitas.

Algo de caricato se passou nos correios da Vila: deixou de haver selos internacionais. Das duas, uma: ou se compravam 3 selos normais, equivalente a um internacional (ocupando a parte superior do postal), ou se carimbava o postal para depois entregar em mão já em Portugal.

A Ana Santiago trouxe de Portugal umas cartas de algumas crianças da Catequese de Rio Tinto para entregar a crianças de cá. Foi muito ternurento. De Portugal, as cartas foram escritas com muito carinho, contando características e gostos de cada um. As respostas, muito entusiásticas, dos miúdos de Sal-Rei deixaram-nos muito “derretidas”. Até se trocaram promessas de amizade para sempre. O Sandro, um dos miúdos que nos dá mais dores de cabeça, até desenhou um coração que quis que dissesse: “I love you”.

Depois do almoço, seguiu-se um tempo de preparar cenários e pintar as ultimas t-shirts. Todas puseram mãos à obra, sobrando ainda tempo para ir dar um mergulhinho. Todas as cadeiras e mesas encheram-se de verdadeiras obras de arte. Acabámos todas pintalgadas.

Mas as pinturas de hoje não se ficaram por aqui. Dois muros da vila foram pintados na actividade do ambiente. Mais uma vez a excitação instalou-se e foi difícil controlar crianças tão agitadas e dispostas a pintar tudo o que lhes aparecia pela frente. Ficamos atrapalhadas quando, depois da actividade para sensibilizar na protecção do ambiente, o mar ficou cor de laranja com a lavagem de mãos e caras.

As professoras de culinária tiveram uma agradável surpresa na última aula. As participantes organizaram-se e trouxeram ingredientes e uma panela enorme para preparar uma cachupa, depois de fazerem a receita pensada, para nós comermos. Só houve um inconveniente: a Senhora Maria esteve na nossa cozinha a preparar uma deliciosa cachupa para o nosso jantar.

Esta tarde houve catequese para adultos no bairro das barracas. A Piedade e a Marta Costa ficaram impressionadas com a doutrina que sabiam.

A Diana, a Rita Mesquita e a Rita Leão passaram a tarde a divulgar o festival de amanhã. De megafone em punho, com música, iam anunciando um festival que prometiam ser o melhor deste verão. Já tendo percorrido grande parte do caminho, o Sr. Zezinho apareceu no sítio certo à hora certa, levando-as na sua carrinha.

Cada aluno do curso de auto-negócios recebeu um kit preparado pelas professoras: o curriculum pessoal em versão papel e digital, para possíveis alterações, um caderno com o que tinham aprendido nestes dias e ainda a declaração de que tinham participado neste curso. Toda a sessão de entrega dos kits foi muito solene.

As últimas aulas dos níveis do curso de inglês não ficaram atrás. Tiveram direito a lanchinho: bolos dan-cake e sumos. A Inês Magriço ainda discursou na sessão de entrega de diplomas frisando que a “formação não acaba nunca”. Um dos alunos da Beatriz, cozinheiro num dos hotéis da zona, entregou-lhe uma ementa para ela lhe traduzir.

Finalmente, durante a tarde, a Câmara veio buscar parte dos caixotes com material que tínhamos trazido há 15 dias (!) para entregar e que tinham ficado, nestes dias, no nosso pátio.

Enquanto jantávamos uma fantástica cachupa preparada carinhosamente pela Sra. Maria, eis que surge uma senhora no nosso alojamento acompanhada por algumas voluntarias. Comeu da nossa cachupa e durante bastante tempo grande parte do grupo interrogava-se sobre a presença daquela senhora. Viemos a saber que era belga, que se interessou pelo nosso projecto e queria saber como poderia ajudar.

A tertúlia foi muito variada. Começou com os avisos para a organização do dia de amanhã, contámos episódios divertidos e  acabou com o desafio da Joana Nestor e da Ana Santiago para um jogo. A primeira reacção das voluntarias foi de cansaço, mas rapidamente se dispuseram a participar. Ninguém se arrependeu porque o jogo foi bastante engraçado: a cada uma foi colado nas costas um balão de uma certa cor e sem pudermos falar, tínhamos que nos juntar em grupos conforme as cores. Depois da tertúlia ainda houve quem saltasse à corda, recordando músicas antigas.

Aproveitando o facto de termos um terraço, a Rita Leão, Teresinha Flores e Ana Isabel Carvalho resolveram pregar uma partida: iam chamando o nome de quem passava pelo pátio e escondiam-se. Era cómico assistir à indignação das que iam sendo chamadas.

Procurámos adormecer cedo porque amanhã reserva-nos um dia em peso!

11 de Agosto :: décimo-quinto dia

Estamos já a meio da semana. Começa hoje a recta final para preparar o festival do Projecto Cabo Verde.

Treze voluntárias partiram toda a manhã para a Povoação Velha. Foram muito bem acolhidas. O trabalho foi intenso mas muito produtivo. Pelo que contaram, umas crianças foram até à saída da povoação para acompanhar a carrinha na saída e dizer adeus.

A manhã passou a correr. As monitoras da actividade da Volta ao Mundo suspiraram fundo por ser o último dia. No teatro distribuíram-se os papéis das personagens e nas artes estamparam-se as primeiras t-shirts que servirão para o festival.

Os jogos são quase sempre os mais ansiados. Para os rapazes basta dar-lhes uma bola de futebol que eles deliram. As músicas do “king kong” ou “banana united” são sempre um bom recurso quando as crianças começam a dispersar.

No ambiente foram feitos inquéritos sobre o “ Ambiente e Saúde”. As equipas dividiam-se entre a vila e as barracas. O objectivo foi perceber os pontos críticos na qualidade do ambiente.

A Inês Lousada e Rita Leão fizeram divulgação nas barracas munidas com megafone e música, anunciando uma debate sobre sustentabilidade no Bairro das Barracas. Pelas 19h30 foram vistos 2 pequenos filmes e seguiu-se  uma sessão de sensibilização e promoção da cooperação entre as várias pessoas e etnias presentes, animada pela Ana Santiago, entrevistando a população sobre os problemas que consideravam prioritários. O contraste da tecnologia de projecção levada pelo Sérgio, dono do Centro Comercial Boas Compras e pessoa preocupada com as gentes das barracas, e a precariedade do ambiente poeirento e lúgubre do espaço onde nos encontrávamos, era muito impressionante. Apesar de também terem sido referidas as situações de violência, ressaltava a preocupação generalizada com o lixo e os focos de contaminação múltiplos existentes. O infatigável Sr. Zezinho, um dos mentores da Associação da Boa Vontade da Barraca, fez várias intervenções e dinamizações em crioulo entre a população, e como estavam presentes 3 pessoas da Câmara Municipal, uma delas o vereador da Cultura, justificou-se também a sua comunicação. No final, os residentes foram convidados a sugerir o nome para baptizar o seu bairro. Muito interessante e esperemos que tenha ajudado a que se encontrem caminhos concretos, mesmo que simples, de dignificar e melhorar a vida das pessoas que ali vivem. A equipa do ambiente do Projecto Cabo Verde está alerta e interventiva!

A tertúlia foi passada com Gabi Estrela e Gabi Santos, que nos proporcionaram uma noite de mornas. Segundo a Gabi Estrela a morna é um sentimento, remete para momentos de nostalgia. Uma vez que o músico previsto estar não apareceu, a Joana Nestor foi a braço direito de Gabi tocando os ritmos caboverdianos com a viola. As voluntárias renderam-se e deram passinhos de dança e ainda cantaram algumas músicas portuguesas, além de trautearem a morna da Gabi Estrela com que a Fátima Magalhães acorda todos os dias – ela e nós!

10 de Agosto :: décimo-quarto dia

A manhã de hoje foi penosa para, pelo menos, metade das voluntárias. As horas de sono foram poucas devido á grande noite de ontem com as tartarugas. No entanto, mesmo sonolentas, lá tomámos o banhinho, o pequeno almoço e, já atrasadas tentámos (como quase todos os dias) apanhar boleia de quem passava. Aquelas pick-up são a nossas salvação!

Na meditação o Sr. Padre contou-nos uma história que nos impressionou bastante. Gradualmente, vamos descobrindo o que na verdade se passa e a forma como as pessoas vivem nesta ilha. Aquilo que à primeira vista parece razoável, esconde outras realidades bem diferentes. Já sabíamos que a preparação da missa nas barracas tinha sido um desafio. O que não sabíamos era que, em cima da hora,  não havia mesa que servisse de altar para a celebrar.  Mais uma vez o Sr. Zezinho resolveu-nos o problema. Depois, não havia vela. Ao que uma Senhora, voluntariosa, foi a casa buscar uma embalagem.  No fim, o sacerdote contava com duas embalagens de velas, uma oferecida pela Senhora, outra entregue no ofertório. No Bairro das Barracas a luz é muito cara, para não falar que não existem postes, deixando os fios à altura de um primeiro andar e entrelaçados como calha. Isto, fazendo das velas um bem precioso e, fazendo desta gente uma lição de generosidade para todos nós.

Como todos os dias, voltámos para as actividades que nos estavam designadas. Um grupo de voluntárias saiu para o interior da ilha. A primeira paragem foi em Fonte Figueira, donde se diz ser natural o Nelson Évora. Numa região muito parecida com o nosso Alentejo e onde o crioulo é bastante imperceptível, conseguimos fazer um check up médico quase total e divertir muita criança. Em João Galego, a segunda paragem, tivemos uma adesão da população muito menor. No entanto, à medida que as gargalhadas se iam soltando, foram chegando mais e mais crianças.

De volta a Sal Rei, tudo corria dentro da normalidade,  tendo em conta os padrões de Cabo Verde. Hoje com uma visitinha especial do Sr. Padre Pimentel. Entretanto, nas barracas a pintura da Igreja estava a terminar. A rapidez dos rapazes, da Mami e da Matilde na arte da pintura é impressionante!

Após o almoço esperava-se a vinda do Presidente da Câmara, o Sr. Djô Pinto, aproveitando o entretanto para adiantar as pinturas para o festival. O Sr. Presidente achou-nos muito educadas (!), falou várias vezes da cooperação de Portugal a Cabo Verde e do agradecimento das gentes da ilha perante as nossas iniciativas. Referiu também, que uma das maiores dificuldades era conseguir que as mercadorias, como medicamentos e material escolar, chegassem à Ilha da Boavista. Devido a conflitos e burocracias ficam, muitas vezes, retidos contentores cheios na cidade da Praia e também no porto da Boavista.

De tarde, na actividade do ambiente fizeram-se gincanas de jogos na praia. Os miúdos deliraram com o jogo de passar por baixo de fios a rastejar ou a dançar e quando tentavam que um ovo chegasse ao fim da calha feita de garrafas.  Na escola primária cantou-se os parabéns a um aluno do primeiro nível de inglês e na culinária das barracas fizeram-se músicas com os cadernos das receitas.  

Ao fim do dia, apesar do cansaço, a excitação sentia-se pois, o segundo grupo iria ás tartarugas. Com a ajuda da Joana, da Turtle Fundation, avistaram-se duas tartarugas. A primeira andava um pouco desorientada, possivelmente, devido ao foco de luz proveniente das construções de um grande e novo resort. Auxiliámos a tartaruga de volta ao mar e continuámos a busca por aquelas areias finas e sempre protegidas por aquele céu magnífico, presenteadas por uma chuva de estrelas cadentes e a Via Láctea bem identificável. Finalmente, a patrulha de vigilância fez-nos sinais. Mais uma tartaruga! Com a ajuda da lanterna de luz vermelha e muito cuidadosamente pudemos observar o desovar de dezenas de ovinhos – quase 100! -de uma Careta!

9 de Agosto :: décimo-terceiro dia

Com as “baterias carregadas” depois de um dia de descanso, a semana avizinha-se prometedora. Recomeçam dias intensos de trabalho, dando inicio à contagem decrescente para terminar a nossa estadia na Ilha da Boavista.

É necessário hoje fazer uma referência mais prolongada ao tempo de limpeza (não se preocupem os leitores que tentaremos não entrar em pormenores). É de louvar todas as que passaram, e passarão nos próximos dias, por esta função. Em cada dia, uma equipa de 6 voluntarias, escolhidas a dedo pelo staff, organiza-se para pôr a nossa casa num “brinquinho”. Trabalha-se arduamente toda a manhã com falta de água e poucos recursos materiais, sendo a lixívia a nossa melhor amiga. Quatro limpam casas de banho e duas as zonas comuns. A verdade é que todos os dias a nossa casa mantém-se acolhedora e perfumada.

No teatro treinam-se as crianças para um fantástico musical que irá ser apresentado na festa. A temática será o mar e a luta contra a poluição. Claro que a natureza sairá vencedora.

No final da manhã reuniu-se a Comissão de organização da festa composta por: Margarida Calado, Rita Leão e Rita Mesquita. Além de decidirem o local e o horário, distribuirão tarefas entre as voluntárias. É exigida a colaboração de todas. Em vez de “Festa”, decidiu-se chamar “Festival” já que normalmente cá entende-se que “Festa” implica haver comida.

Depois do almoço, o tempo livre foi passado, para a grande maioria, a comprar lembranças. Constatou-se que se investiu na bijuteria para os “souvenires”. Um grupo, ainda bastante grande, confortou-se com uma cervejinha “Strela” na esplanada.

A Constança Líbano Monteiro, a Maria de la Fuente e a Mariana Santiago deram uma sessão para as jovens da Boavista: “Saber estar e saber falar”. Exemplificaram pequenos episódios do dia a dia onde se apontavam formas correctas de comportamento. O desafio era conciliar o que para nós é culturalmente correcto e a mentalidade “bubista”. Ficaram surpreendidas com o empenho e interesse de todas as participantes.

Na aula de culinária dirigida pela Fátima Magalhães, Ana Filipa e Maria Inês, houve batucada. Enquanto a sopa arrefecia, os alunos e professoras animaram a espera com os ritmos africanos provindos do batimento de mãos e cadernos nas mesas. Satisfeitos, os alunos apenas apontaram a falta de sal (não admira que as tensões arteriais batam todos os recordes).

Durante a tarde, os grupos das tartarugas juntaram esforços para apanhar lixo. Com pinças, luvas e sacos do lixo, uma das crianças de cada grupo ia anotando o número de latas, papel e plástico. Os resultados da apanha foram astronómicos. Mais uma vez as “Mydas” ficaram em primeiro lugar.

À noite, tivemos um programa especial: metade do grupo saiu para ver tartarugas. Restava-nos saber se regressávamos a casa com sucesso na expedição. Fomos em dois jipes, muito aconchegadas. Os nossos motoristas guiavam como se as tartarugas fossem desaparecer em breve. Sentimo-nos como se estivéssemos num rally Dakar, pois o terreno gerava grandes solavancos e, como fechar as janelas era impensável, a poeira envolvia-nos.

Chegámos à praia do Lacacão depois de uma hora de viagem. Está em construção um hotel junto à praia, havendo como única luz os focos que iluminavam as obras. Fomos recebidas pelos guias desta expedição, pela Joana Hancok e pelo Domingos, da Turtle Foundation. Dividimo-nos em dois grupos e recebemos algumas indicações, como por exemplo, andar sempre em fila indiana e em absoluto silêncio para não afastar alguma tartaruga que ponderasse desovar nesta praia. Todas sabíamos que na pior das hipóteses poderíamos não ver qualquer tartaruga.

Percorremos a praia do Lacacão, num vasto areal, tendo um manto estrelado sobre as nossas cabeças e ouvindo o bater das ondas. Cada uma confiava  inteiramente na pessoa que tinha à frente. Até ao fim da praia não avistámos qualquer tartaruga. Os dois grupos juntaram-se para tentar a sua sorte noutra praia. Foram encontrados alguns rastos de tartarugas que já tinham ido desovar. A nossa busca continuava intensamente e chegámos a avistar uma tartaruga que devido à nossa presença fugiu! Apesar dos esforços das voluntárias por manter o silencia a tartaruga optou por regressar para as águas salgadas. Mas não desistimos tão facilmente. Até que de repente, fomos surpreendidas não por uma, mas por duas tartarugas que amigavelmente colocavam ovos lado a lado. No entanto, verificamos que ambas já estavam a tapar os respectivos ninhos. A guia ainda conseguiu tirar um ovo para nos mostrar. Depois de uma corrida de tartarugas, com apostas e tudo, sentámo-nos no areal para ouvir um pouco mais deste animal tão carismático e que despertou em nós bastante carinho. Como já era tarde, muitas voluntárias (Piedade, Pipoca, Mariana, Catarina Cruz e Inês Lousada) não resistiram a uma paragem e “passaram pelas brasas”, quase perdendo a guia e o grupo de regresso a casa. Não há duas sem três: enquanto regressávamos aos jipes, parte do grupo assistiu à desova de outra tartaruga – não sem que antes não tivessem confundido tartarugas com arbustos ou carapaças abandonadas. Foi um momento emocionante.

Regressámos a casa, por volta das 3 da manhã, bastante cansadas mas muito contentes. É  admirável como muitas adormeceram profundamente na viagem de jipe, bastante atribulada.

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