Projecto Cabo Verde

Estudantes universitárias e jovens profissionais, em regime de voluntariado, integradas num projecto de cooperação

9 de Agosto :: décimo-terceiro dia

Com as “baterias carregadas” depois de um dia de descanso, a semana avizinha-se prometedora. Recomeçam dias intensos de trabalho, dando inicio à contagem decrescente para terminar a nossa estadia na Ilha da Boavista.

É necessário hoje fazer uma referência mais prolongada ao tempo de limpeza (não se preocupem os leitores que tentaremos não entrar em pormenores). É de louvar todas as que passaram, e passarão nos próximos dias, por esta função. Em cada dia, uma equipa de 6 voluntarias, escolhidas a dedo pelo staff, organiza-se para pôr a nossa casa num “brinquinho”. Trabalha-se arduamente toda a manhã com falta de água e poucos recursos materiais, sendo a lixívia a nossa melhor amiga. Quatro limpam casas de banho e duas as zonas comuns. A verdade é que todos os dias a nossa casa mantém-se acolhedora e perfumada.

No teatro treinam-se as crianças para um fantástico musical que irá ser apresentado na festa. A temática será o mar e a luta contra a poluição. Claro que a natureza sairá vencedora.

No final da manhã reuniu-se a Comissão de organização da festa composta por: Margarida Calado, Rita Leão e Rita Mesquita. Além de decidirem o local e o horário, distribuirão tarefas entre as voluntárias. É exigida a colaboração de todas. Em vez de “Festa”, decidiu-se chamar “Festival” já que normalmente cá entende-se que “Festa” implica haver comida.

Depois do almoço, o tempo livre foi passado, para a grande maioria, a comprar lembranças. Constatou-se que se investiu na bijuteria para os “souvenires”. Um grupo, ainda bastante grande, confortou-se com uma cervejinha “Strela” na esplanada.

A Constança Líbano Monteiro, a Maria de la Fuente e a Mariana Santiago deram uma sessão para as jovens da Boavista: “Saber estar e saber falar”. Exemplificaram pequenos episódios do dia a dia onde se apontavam formas correctas de comportamento. O desafio era conciliar o que para nós é culturalmente correcto e a mentalidade “bubista”. Ficaram surpreendidas com o empenho e interesse de todas as participantes.

Na aula de culinária dirigida pela Fátima Magalhães, Ana Filipa e Maria Inês, houve batucada. Enquanto a sopa arrefecia, os alunos e professoras animaram a espera com os ritmos africanos provindos do batimento de mãos e cadernos nas mesas. Satisfeitos, os alunos apenas apontaram a falta de sal (não admira que as tensões arteriais batam todos os recordes).

Durante a tarde, os grupos das tartarugas juntaram esforços para apanhar lixo. Com pinças, luvas e sacos do lixo, uma das crianças de cada grupo ia anotando o número de latas, papel e plástico. Os resultados da apanha foram astronómicos. Mais uma vez as “Mydas” ficaram em primeiro lugar.

À noite, tivemos um programa especial: metade do grupo saiu para ver tartarugas. Restava-nos saber se regressávamos a casa com sucesso na expedição. Fomos em dois jipes, muito aconchegadas. Os nossos motoristas guiavam como se as tartarugas fossem desaparecer em breve. Sentimo-nos como se estivéssemos num rally Dakar, pois o terreno gerava grandes solavancos e, como fechar as janelas era impensável, a poeira envolvia-nos.

Chegámos à praia do Lacacão depois de uma hora de viagem. Está em construção um hotel junto à praia, havendo como única luz os focos que iluminavam as obras. Fomos recebidas pelos guias desta expedição, pela Joana Hancok e pelo Domingos, da Turtle Foundation. Dividimo-nos em dois grupos e recebemos algumas indicações, como por exemplo, andar sempre em fila indiana e em absoluto silêncio para não afastar alguma tartaruga que ponderasse desovar nesta praia. Todas sabíamos que na pior das hipóteses poderíamos não ver qualquer tartaruga.

Percorremos a praia do Lacacão, num vasto areal, tendo um manto estrelado sobre as nossas cabeças e ouvindo o bater das ondas. Cada uma confiava  inteiramente na pessoa que tinha à frente. Até ao fim da praia não avistámos qualquer tartaruga. Os dois grupos juntaram-se para tentar a sua sorte noutra praia. Foram encontrados alguns rastos de tartarugas que já tinham ido desovar. A nossa busca continuava intensamente e chegámos a avistar uma tartaruga que devido à nossa presença fugiu! Apesar dos esforços das voluntárias por manter o silencia a tartaruga optou por regressar para as águas salgadas. Mas não desistimos tão facilmente. Até que de repente, fomos surpreendidas não por uma, mas por duas tartarugas que amigavelmente colocavam ovos lado a lado. No entanto, verificamos que ambas já estavam a tapar os respectivos ninhos. A guia ainda conseguiu tirar um ovo para nos mostrar. Depois de uma corrida de tartarugas, com apostas e tudo, sentámo-nos no areal para ouvir um pouco mais deste animal tão carismático e que despertou em nós bastante carinho. Como já era tarde, muitas voluntárias (Piedade, Pipoca, Mariana, Catarina Cruz e Inês Lousada) não resistiram a uma paragem e “passaram pelas brasas”, quase perdendo a guia e o grupo de regresso a casa. Não há duas sem três: enquanto regressávamos aos jipes, parte do grupo assistiu à desova de outra tartaruga – não sem que antes não tivessem confundido tartarugas com arbustos ou carapaças abandonadas. Foi um momento emocionante.

Regressámos a casa, por volta das 3 da manhã, bastante cansadas mas muito contentes. É  admirável como muitas adormeceram profundamente na viagem de jipe, bastante atribulada.

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